Espiritismo e Saúde

Vivemos um momento histórico e decisivo em nosso processo evolutivo, a se refletir em todos os campos do conhecimento humano.

Na medicina , através do avanço tecnológico, encontramos maior facilidade no diagnóstico e no tratamento das doenças, e observamos um crescente domínio das patologias que assustavam no passado. Surgiram os antibióticos no controle das infecções, a cirurgia evolui em técnicas cada vez mais precisas e menos invasivas, a dor cedeu pela ação dos analgésicos e anestésicos e a pesquisa avança rapidamente no estudo da genética e da imunologia.

Estamos no século da globalização, da informática, da telefonia celular, dos transportes aéreos, das telecomunicações, que aproximam cada vez mais todos os povos. E a tecnologia continua crescendo vertiginosamente ampliando a comodidade e o bem-estar humano.

Mas ao lado destes avanços, ainda nos deparamos com a desnutrição e a falta de saneamento básico. A desidratação permanece elevada em todo o mundo ceifando a vida de inúmeras crianças.

Embora as facilidades da vida moderna encontramos um homem bastante infeliz, excessivamente preocupado pelo conforto material, pagando um pesado tributo pela constante ansiedade e tensão psíquica. Esquecido de sua realidade espiritual, não encontra tempo para cultivar os valores da alma, permanecendo totalmente desinformado dos objetivos reais de sua existência. Não há tempo para o diálogo dentro do lar, a educação moral dos filhos fica em segundo plano, e a vida vai passando, não há tempo e muitas coisas vão ficando de lado.

Consequentemente, o ser humano passa a refletir no seu estado físico e emocional este desajuste psíquico, havendo um aumento das chamadas doenças psicossomáticas, das neuroses e psicoses. Estados depressivos, ansiedades e pânicos são queixas freqüentes no consultório médico. O índice de suicídio, de violência e dependência química tornou-se um preocupação de ordem coletiva pela sua amplitude.

Não queremos fazer apologia ao pessimismo, são fatos concretos que necessitam serem analisados e compreendidos para conseguirmos as soluções necessárias. Com estas reflexões nós queremos questionar qual a causa profunda desta crise, a quê relacionar o momento que estamos vivendo, e se a medicina está sabendo dimensionar a questão e dar a ela uma resposta adequada.

Não podemos realizar uma medicina eficaz sem nos confrontarmos com as questões sociais e educativas. E não podemos pensar no homem somente como um agregado de células, mas um ser espiritual que pré existe a formação do corpo e continua a existir após o seu desencarne, carregando consigo uma bagagem de experiências do passado a influenciar no presente.

Como pensar em saúde sem questionarmos a mente, e como estudarmos a mente sem nos determos na realidade da alma com suas criações mentais.

A partir do pensamento de Descartes, que separou o corpo e a alma para facilitar o estudo das partes, influenciando toda a ciência com o seu método cartesiano, e do pensamento mecanicista de Newton, houve uma excessiva preocupação com o corpo e a alma passou a ser esquecida. A medicina centrou sua preocupação na questão biológica, e o Ser humano passou a ser estudado em partes através dos sistemas nervoso, digestivo, respiratório, cardiovascular, urinário, etc. O corpo humano passou a ser visto como uma máquina, o coração é comparado a uma bomba que pulsa, e ,até hoje, temos a tendência de relacionar o cérebro a uma imagem material, como fios elétricos ou a um computador. Se é verdade que esta abordagem favoreceu o aprofundamento do conhecimento e a formação dos especialistas, também é verdade que contribuiu para se perder a visão do todo.

Somando a isto, tivemos a influência negativa da religião, que no passado procurava transformar o homem através de posturas rígidas e práticas exteriores, alimentando o medo e as superstições em vez de ajudá-lo mediante a ampliação da consciência através do amor e do conhecimento.

Como reflexo, embora os avanços conquistados, encontramos uma medicina tateando ainda na superfície sem buscar as causas profundas sediadas na intimidade do espírito. Conseguimos aliviar o corpo, mas esquecemos da alma, consequentemente as insatisfações e frustrações humanas continuam aumentando e as necessidades mais básicas da vida ainda permanecem nos afligindo. A fome, a solidão e o vazio existencial, fruto direto de uma vida centrada no egoísmo e no orgulho.

Ao esquecer a realidade espiritual, o homem ficou preso ao imediatismo da vida, e a fé, ficou esquecida. A desesperança nasce de uma perspectiva do aqui e agora, onde tudo se acaba com a morte do corpo. Este pensamento alimenta o apego a matéria como sinônimo de vida, fugindo da reflexão sobre a fugaz passagem que é uma encarnação. Na verdade ninguém consegue viver sem uma fé, sem acreditar em algo, nem que este algo seja material, como o dinheiro, as aparências, os fatores sociais. O doente, se não tivesse fé no médico, segurança na tecnologia, se não acreditasse no remédio, certamente não buscaria o atendimento adequado, desanimaria antes disto. Nós sempre teremos que depositar a nossa fé e crença em algo. O problema é que, não havendo uma visão profunda da vida, o ser humano fica automatizado, numa abordagem superficial, e acaba depositando sua fé unicamente na matéria, que na verdade é algo mutável, a matéria se transforma, está em constante modificação, e é passível de ser destruída. O dinheiro se acaba, a casa queima, o carro pode sofrer acidente, o corpo é suscetível de ficar doente e, certamente, um dia se termina. Colocar a fé em algo material é o mesmo que colocar a felicidade em algo passageiro, embora a ilusão de perenidade. Pela falta de meditação sobre a própria vida, com medo do futuro e da morte, o homem está em constante fuga de si mesmo.

No Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XVI (Não se pode servir a Deus e a Mamon), no item "Emprego da riqueza", encontramos a seguinte instrução de um espírito protetor: "Quando considero a brevidade da vida, dolorosamente me impressiona a incessante preocupação de que é para vós objeto o bem-estar material, ao passo que tão pouca importância dais ao vosso aperfeiçoamento moral, a que pouco ou nenhum tempo consagrais e que, no entanto, é o que importa para a eternidade. Dir-se-ia, diante da atividade que desenvolveis, tratar-se de uma questão do mais alto interesse para a Humanidade, quando não se trata, na maioria dos casos, senão de vos pordes em condições de satisfazer a necessidades exageradas, à vaidade, ou de entregardes a excessos. Que de penas, de amofinações, de tormentos cada um se impõe; que de noites de insônia, para aumentar haveres muitas vezes mais que suficientes! ...Unicamente no vosso corpo haveis pensado; seu bem-estar, seus prazeres foram objeto exclusivo da vossa solicitude egoística. Por ele, que morre, desprezastes o vosso Espírito, que viverá sempre. Por isso mesmo, esse senhor tão animado e acariciado se tornou o vosso tirano; ele manda sobre o vosso Espírito, que se lhe constituiu escravo. Seria esta a finalidade da existência que Deus vos outorgou?".

Não podemos separar o corpo e alma, precisamos nos voltar para a nossa realidade intrínseca, retomar a consciência de si próprio, reestruturarmos os valores morais e da fé, fundamentais para o nosso equilíbrio psíquico e, assim, alcançarmos a saúde perfeita. E para isto, é fundamental sintonizarmos os nossos pensamentos com os do Cristo, que, invariavelmente, é o Médico Divino a nos ensinar a cura real e segura de nossas mazelas. Sem harmonia do pensamento não há saúde do corpo.